06
abr

O Tamanho da Aldeia

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Você se sentiu amparada no período de pós-parto? Havia alguém para te escutar e com quem dividir as angústias dessa fase? O psicólogo João Andreucci, um de nossos coordenadores, nos traz um relato, a partir de uma experiência pessoal e profissional, sobre o suporte (ou não) dos outros para os pais que estão passando pelos desafios dos primeiros dias de um bebê.

 

 Um tempo atrás, quando vi num documentário a aparição do ditado de uma tribo africana : “é preciso uma aldeia inteira para cuidar de uma criança“, imediatamente considerei essa frase como a peça que faltava em um quebra-cabeça, a síntese de vários pensamentos num lugar só.

Explico: como psicólogo atuante na área da Primeira Infância há alguns anos, existe um conceito que eu e muitos dos meus colegas enfatizamos na nossa atuação que é a ideia de ” trabalhar em rede”. E por “rede” nos referimos à todos os cuidados e cuidadores responsáveis pelo bebê em seus primeiros anos de vida. Estamos falando, então, dos pais e da família, da comunidade, dos órgãos políticos e das instituições públicas e privadas de saúde, cultura e educação que cercam e amparam essa criança. 

Um bocado de gente que parece estar “de olho” nesse bebê, não é mesmo? Bom, na prática, muitas vezes não funciona assim, e nem todos os “olhos” estão sempre fazendo sua parte adequadamente.  Daí, portanto a importância de trabalhar em rede, ou seja, que todas as partes envolvidas nesse cuidado estejam alinhadas, ou, ao menos, em diálogo, e focadas no objetivo principal: o bem-estar do bebê e sua família.  

A aldeia precisa estar unida na construção e no desenvolvimento dos seus pequenos. 

A minha percepção sobre o ditado africano, no entanto, mudou recentemente. Não é que passei a desacreditá-la ou algo assim. Pelo contrário. Minha filha nasceu há exato um mês e eu passei a ter uma nova dimensão dessa “aldeia”. Desta vez,  não do ponto de vista profissional, e sim, na pele, bem no meio da aldeia, como pai.   E entre uma das muitas coisas que  me impressionaram dessa experiência, foi a proporção do afeto que um bebê  pode mobilizar. Nunca tinha presenciado tantas demonstrações de carinho, cuidado e preocupação por alguém (de forma totalmente espontânea, deve-se ressaltar) quanto nesse mês que se passou.

Parentes distantes se tornaram próximos novamente no instante em que entraram no quarto da maternidade. Um amigo com quem não falava havia anos cruzou dois estados para nos visitar. Tios rabugentos esqueceram a amargura em casa e pareciam ansiosos como crianças para ter Isabel no colo. Avós e avôs recobraram o brilho da vida, de um dia para o outro. Um primo empresário workaholic, a última pessoa que eu imaginaria preocupada com um bebê,  agora me manda mensagens diariamente para saber se Isabel melhorou das cólicas.  E eu, diante essa multidão de amor cercando minha filha, não podia deixar de me sentir mais privilegiado e também de me impressionar ao ver como os bebês provocam pequenos milagres à sua volta.

O bebê nasce e a aldeia se mobiliza , se alvoroça. Não sei explicar que corrente elétrica que percorreu tanta gente com o aviso do nascimento da Isabel. Mas que o fenômeno é impressionante ele é , e só mesmo vivenciando para se ter a dimensão.

Mas, não é só isso.

Essa mobilização se mostrou não somente linda de se ver, como necessária. Para mim, para minha esposa, e para nossa família. E é esse o ponto que gostaria de ressaltar.  Foi só mesmo experienciando  a ansiedade, a exaustão, as inúmeras inseguranças  de cuidar de um bebê em seus primeiros dias que percebi que o apoio e a ajuda das nossas famílias e amigos eram fundamentais. E não só deles, como os profissionais (médicos e enfermeiros) que nos acolhiam, assim como o suporte e compreensão dos chefes e colegas de trabalho, proporcionando que eu e minha esposa estivéssemos passando por essa fase seguros e tranquilos à respeito de nossa carreira.

Me sinto privilegiado por terem me concedido um mês inteiro de licença-paternidade e poder ajudar minha esposa, estar bem de perto nesses primeiros desafios e descobertas, sabendo que estamos num país onde os pais são vistos frequentemente como dispensáveis nesta fase,  onde muitos deles ainda ganham míseros 5 dias de licença.

Durante esse período, muitas vezes eu ficava me perguntando: como conseguem as mães que não tem ninguém para auxiliar e tem que passar por tudo sozinhas? O que acontece se a “aldeia” não aparece para cuidar do bebê? Como sobrevivem as mães “sem aldeia”, “sem rede”?

E, vejam, não estou falando de algo que pode acontecer apenas em classes sociais mais desfavorecidas. Independente da classe, nesse período de pós-parto muitas mães (num número muito maior que gostaríamos de aceitar) se sentem desamparadas e solitárias, e ainda por cima tendo de enfrentar enormes desafios emocionais e fisicos. Mesmo que tenham ocorrido mudanças, assuntos como depressão pós-parto são tabus em nossa sociedade: quantos casos de depressão pós-parto poderiam ser prevenidos ou melhor assistenciados se a sociedade se dispusse a olhar mais profundamente para a importância desta etapa da vida?

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Não estou falando, que fique bem claro, que é necessário um acompanhamento full time de uma enfermeira ou de algum parente durante o período. Para alguns casais pode ser necessário e para outros pode não ser. E muitos menos quero dizer que as mulheres não podem e não conseguem ser mãe solteiras. Pelo contrário, uma mulher tem toda capacidade para tal, e observando alguns casos de pais de comportamento abusivo, o ditado “antes só do que mal acompanhado”  vale com toda a força para essas mães.

O meu ponto é ressaltar a importância desse apoio, afinal, nunca estamos totalmente isolados. O apoio pode vir tanto de um companheiro ou companheira, como de um familiar, de um psicólogo, de um educador, de um amigo. Nenhuma mãe deveria ter receio de buscar ajuda e apoio se acredita que está precisando. E, talvez mais importante que tudo, de que a “aldeia” de cada família é sempre construída, ela não vem pré-estabelecida. Que a ajuda pode vir de muitas maneiras:  talvez não ajudando na troca de fraldas, mas pode ser um momento de lazer, por exemplo. Muitas vezes o maior auxílio que se pode ter, e eu senti isso, é de alguém te ajudar se distrair e se permitir descansar um pouco. 

E, aqui no Cadê, nós atuamos para fazer parte da aldeia de cada família que vem pra cá. Desde o dia em que abrimos a casa, pude vivenciar frequentemente isso: muitas famílias criaram e criam laços de confiança com brincadês e funcionários da casa, e aqui encontram a oportunidade de se amparar e dividir as angústias, ou simplesmente espairecer e se divertir, se permitir relaxar e se tornar mais leve. Hoje, voltando ao Cadê da licença-paternidade, sinto pela uma alegria dupla por me sentir pertencente desta aldeia onde tantas pessoas se apoiam e se encontram, um lugar onde posso ajudar e ser ajudado, onde precisam de mim e eu preciso deles. 

 

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